Soube hoje que um dos (meus) “putos” que acompanhei no norte, faleceu este fim-de-semana, por afogamento… já é o segundo
e os dois da mesma maneira, mas os dois, com percursos completamente diferentes.
Penso muito neste mar de pessoas que se cruza na minha vida profissional, muitas vezes não dão (grandes) frutos, mas a verdade é que deixam semente…
Dele recordo-me da sua história… Uma história que mudou quando a mãe decidiu alterar o rumo da sua vida e aceitar ajuda para fugir à violência do marido. Veio assim com os filhos, duma aldeia, para uma cidade, para uma casa, com outras pessoas, mas com a mesma história.
Ele não se encontrou no meio daquela confusão de cidade. Não estava habituado, ele, menino calmo e introvertido, cujo sítio preferido era o campo. Ele, não se identificou com nada nem com ninguém daquele novo mundo de “morangos sem açúcar“, deixou de apoiar a mãe quando descobriu que ela gostava de outras mulheres e quis voltar para a terra, quis voltar para o pai, a quem passou a dar razão pela violência.
Fui lá leva-lo… Deve ter sido o único sorriso que lhe vi quando chegámos aos seus “montes”.
Mas a vida volta a dar as suas voltas (e o dinheiro – ou a falta dele – nem sempre acompanha o amor) e às tantas voltas, os pais juntaram-se “-Mas não volto para a aldeia” – dizia a mãe, e assim voltou ele e o pai para a cidade e assim voltou para o meio duma família que não era família (ou se calhar só o era porque o pai trabalhava fora!!).
“Se não podes vence-los, junta-te a eles… e qualquer coisa, serás pior que eles”
Não são precisas muitas palavras para contar o resto da história, até porque o final já é conhecido… o abandono da escola, os furtos e o início dos consumos de droga, o testar de todos os limites, inclusive os meus.
Um dia andou fugido e foi encontrado à beira rio, um dia a mãe ameaçou que se ia suicidar e foram tira-la do rio… …Hoje não quis detalhes da história, a frase brutal de “morreu afogado” já me soou demasiado dolorosa para querer saber mais “porquês e comos“.
Recordei-o o dia todo, as conversas, o olhar de raiva contra o mundo, o olhar de gozo, o olhar de indiferença, o olhar ganzado, o olhar de choro, o olhar de rebeldia de adolescente…
Dizias que no monte é que eras feliz. Imagino-te por lá, imagino que o tempo voltou para trás quando te deixei lá… com um sorriso!!!!

E este será apenas e só um exemplo… de entre muitos!!!
Beijinhos